vasco moniz
uma obra com rosto humano
“Quero viver no meio desta gente simples para saborear o sentido pleno daquela palavra que, por muito aparecer nos discursos, parece que emigrou dos corações: fraternidade.”
– notas biográficas de vasco moniz
Vasco Francisco do Rosário Moniz nasceu em Goa, a 22 de Outubro de 1913, na freguesia de Varnã, concelho de Salcete. Estudou no Seminário Jesuíta de Rachol. Foi ordenado sacerdote católico, a 3 de Outubro de 1937, em Goa, por D. Manuel Ferreira da Silva, Bispo de Gurza.
Terminou a Licenciatura em Teologia, na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a 3 de Junho de 1940. Foi nomeado pároco de Vila Franca de Xira em 1941, cargo que exerceu até 1974.
A 8 de Dezembro de 1944 foi inaugurado o CASI (Centro de Assistência Social Infantil), ”Obra” fundada e dirigida por si até 1976, onde educou várias centenas de rapazes desprotegidos, ajudando-os a serem ”homens de corpo inteiro”.
Criou oficinas de carpintaria, serralharia, mecânica, sapataria e tipografia, para dar um ofício aos seus catraios. Simultaneamente, abriu nas mesmas instalações um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
A 8 de Dezembro de 1950 foi inaugurado o Ginásio do CASI, pavilhão gimnodesportivo polivalente, que possibilitou aos catraios e a outros jovens de Vila Franca de Xira, a prática do desporto e incentivou o gosto pelo teatro, a par de outras actividades. Também em 1950, tomou a iniciativa de construir um bairro social: o Bairro do CASI.
Foi agraciado pelo Estado Português com o Grau da Ordem de Benemerência, a 9 de Janeiro de 1963.
Em 1970, lançou o Boletim Paroquial, exemplo de uma pastoral actuante e inconformada, proibido pela censura após o 15.º número. Aliás, foi a sua postura inconformada que o levaria a ser referenciado pela PIDE/DGS.
Foi Professor do Ensino Preparatório e Secundário desde 1962 e até atingir a idade da reforma.
Em 1972, por sua iniciativa, sentindo os sinais dos novos tempos, iniciou a reconversão do CASI em Jardim Infantil, que mais tarde veio a denominar-se CBEI – Centro de Bem-Estar Infantil de Vila Franca de Xira.
Foi o primeiro Presidente do Conselho Directivo da Escola Preparatória de Vila Franca de Xira, após o 25 de Abril de 1974. Foi deputado à Primeira Assembleia Constituinte eleita depois do 25 de Abril de 1974. A 20 de Novembro de 1974 despediu-se da paróquia. Depois de pedir a redução ao estado laical contraiu matrimónio católico, em 1977.
Morreu na cidade de Vila Franca de Xira a 29 de Novembro de 1988 e foi sepultado a 1 de Dezembro.
CASI – Centro de Assistência
Social Infantil
Vasco Moniz foi nomeado páraco de Vila Franca de Xira pelo Patriarcado a 17 de Janeiro de 1941, enquanto aguardava transporte de regresso a Goa.
Vila Franca de Xira era um centro de oposição ao regime que então vigorava. Existiam muitos problemas paroquiais e a Igreja não tinha a influência desejada, daí a necessidade de mudança.
Desenraizado da família e da cultura adquirida na India e na Europa e sensibilizado com as carências sociais existentes em Vila Franca de Xira, o Padre Moniz cedo procurou quem o pudesse ajudar nos seus propósitos, quer em termos sociais, quer em termos económicos.
Conheceu o industrial Ferreira Delgado, que o ajudou economicamente no arranque dos edifícios que albergariam e educariam centenas de crianças e jovens órfãos e abandonados, em consequência da fome e da miséria que existiam no país.
O Centro de Assistência Social Infantil (CASI), deu os primeiros passos em 1942, altura em que se começava a formar a ideia da criação de uma instituição de apoio a crianças desprotegidas. A ideia foi tomando corpo, os apoios foram surgindo e, a 4 de Maio de 1943, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira oficializou a cedência dos terrenos para a construção do Centro.
Os objectivos do CASI foram traçados. Em entrevista ao jornal Vida Ribatejana, Vasco Moniz tornou-os claros:
“dispensário infantil e socorro às mães, creche recreatória para crianças dos 3 aos 7 anos, escola de ensino elementar e cantina económica para os alunos pobres que frequentam as escolas oficiais e particulares, casas de trabalho, economia, higiene e aperfeiçoamento doméstico”.

primeiro livro de actas
A 3 de Dezembro de 1943, já com os estatutos aprovados, foi oficialmente
instalada a Comissão Executiva do CASI, composta por:
Vasco Moniz
António José Vidal Batista
(advogado)
António Augusto dos Santos Malta
(empregado de escritório)
António Costa Ferrinho
(industrial)
António Maria
(proprietário)
Armando Carvalho Carrilho
(proprietário)
Fausto Nunes Dias
(jornalista)
Fernando Afonso de Paiva
(electricista)
Fernando Tarracha
(estudante)
Joaquim Augusto Faria
(comerciante)
José Maria da Silva Guedes Júnior
(capitão)
Júlio Gaudêncio
(construtor civil)
Noel Perdigão
(industrial)
Raúl Francisco de Carvalho
(funcionário público)
Os primeiros anos do CASI
A 8 de Dezembro de 1944 foi inaugurado o Centro de Assistência Social Infantil (CASI), que foi dirigido por Vasco Moniz até 1976. Simultaneamente, abriu nas mesmas instalações um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
Vasco Moniz encetou um estilo de trabalho diferente do habitual. Em vez de se dedicar à esmola, como era hábito de muitos benfeitores, educou e formou muitos jovens.
Criou oficinas de carpintaria, serralharia, mecânica, sapataria e tipografia, dando aos seus “catraios” uma profissão e possibilitando que ganhassem o seu próprio sustento.
Este estilo de trabalho desde cedo lhe trouxe pressões das hierarquias política e religiosa, que nessa época andavam de mãos dadas.
1944 foi um ano de grandes lutas sociais.
Greves operárias e camponesas, tiveram grande impacto no corredor industrial da margem norte do Tejo até Vila Franca de Xira e às zonas rurais circundantes.
Durante as greves de 8 e 9 de Maio, pela exigência de “pão e géneros”, a repressão sobre os grevistas foi muito grande, tendo sido muitos deles presos.
O padre Moniz manteve sempre uma porta aberta para acolher as mulheres e os filhos destes homens privados da liberdade.
CASI – Centro de Assistência
Social Infantil
Vasco Moniz foi nomeado páraco de Vila Franca de Xira pelo Patriarcado a 17 de Janeiro de 1941, enquanto aguardava transporte de regresso a Goa.
Vila Franca de Xira era um centro de oposição ao regime que então vigorava. Existiam muitos problemas paroquiais e a Igreja não tinha a influência desejada, daí a necessidade de mudança.
Desenraizado da família e da cultura adquirida na India e na Europa e sensibilizado com as carências sociais existentes em Vila Franca de Xira, o Padre Moniz cedo procurou quem o pudesse ajudar nos seus propósitos, quer em termos sociais, quer em termos económicos.
Conheceu o industrial Ferreira Delgado, que o ajudou economicamente no arranque dos edifícios que albergariam e educariam centenas de crianças e jovens órfãos e abandonados, em consequência da fome e da miséria que existiam no país.
O Centro de Assistência Social Infantil (CASI), deu os primeiros passos em 1942, altura em que se começava a formar a ideia da criação de uma instituição de apoio a crianças desprotegidas. A ideia foi tomando corpo, os apoios foram surgindo e, a 4 de Maio de 1943, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira oficializou a cedência dos terrenos para a construção do Centro.
Os objectivos do CASI foram traçados. Em entrevista ao jornal Vida Ribatejana, Vasco Moniz tornou-os claros:
“dispensário infantil e socorro às mães, creche recreatória para crianças dos 3 aos 7 anos, escola de ensino elementar e cantina económica para os alunos pobres que frequentam as escolas oficiais e particulares, casas de trabalho, economia, higiene e aperfeiçoamento doméstico”.

primeiro livro de actas
A 3 de Dezembro de 1943, já com os estatutos aprovados, foi oficialmente
instalada a Comissão Executiva do CASI, composta por:
Vasco Moniz
António José Vidal Batista
(advogado)
António Augusto dos Santos Malta
(empregado de escritório)
António Costa Ferrinho
(industrial)
António Maria
(proprietário)
Armando Carvalho Carrilho
(proprietário)
Fausto Nunes Dias
(jornalista)
Fernando Afonso de Paiva
(electricista)
Fernando Tarracha
(estudante)
Joaquim Augusto Faria
(comerciante)
José Maria da Silva Guedes Júnior
(capitão)
Júlio Gaudêncio
(construtor civil)
Noel Perdigão
(industrial)
Raúl Francisco de Carvalho
(funcionário público)
Os primeiros anos do CASI
A 8 de Dezembro de 1944 foi inaugurado o Centro de Assistência Social Infantil (CASI), que foi dirigido por Vasco Moniz até 1976. Simultaneamente, abriu nas mesmas instalações um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
a festa de inauguração
Vasco Moniz encetou um estilo de trabalho diferente do habitual. Em vez de se dedicar à esmola, como era hábito de muitos benfeitores, educou e formou muitos jovens.
Criou oficinas de carpintaria, serralharia, mecânica, sapataria e tipografia, dando aos seus “catraios” uma profissão e possibilitando que ganhassem o seu próprio sustento.
Este estilo de trabalho desde cedo lhe trouxe pressões das hierarquias política e religiosa, que nessa época andavam de mãos dadas.
1944 foi um ano de grandes lutas sociais.
Greves operárias e camponesas, tiveram grande impacto no corredor industrial da margem norte do Tejo até Vila Franca de Xira e às zonas rurais circundantes.
Durante as greves de 8 e 9 de Maio, pela exigência de “pão e géneros”, a repressão sobre os grevistas foi muito grande, tendo sido muitos deles presos.
O padre Moniz manteve sempre uma porta aberta para acolher as mulheres e os filhos destes homens privados da liberdade.


o Carlos e o Zé Pedro, os dois “intelectuais” do CASI trabalham na organização do ficheiro da Voz do Catraio
Em 1946 foi fundado o jornal Voz do Catraio, inspirado no jornal O Gaiato do padre Américo. A sua existência era uma forma de angariar fundos para a instituição, uma vez que as despesas aumentavam à medida que as obras cresciam e o dinheiro dos benfeitores já não cobria os investimentos.
O jornal, de “carácter social” (nas palavras do próprio padre Moniz), saía no segundo domingo de cada mês e era vendido pelos catraios transformados em ardinas. Percorriam Lisboa, Loures, Samora Correia, Azambuja, Benavente, Santarém, Muge, Carregado, Alenquer e muitas outras localidades, apregoando o seu jornal, que tinha o preço de 1 escudo.
Havia meses em que as vendas ultrapassavam em muito os mil exemplares e, no seu primeiro ano de vida, angariou assinaturas anuais no valor de doze mil escudos.
Em 1953 tinha já cerca de três mil assinantes. Inicialmente, a Voz do Catraio era impresso numa tipografia da vila – Fernando A. Faria, Lda. – mas posteriormente, o CASI adquiriu a sua própria tipografia, orientada por Luís Cairrão e, mais tarde, por José Correia.
Este jornal deixou de ser publicado em 1961 devido a pressões da censura.
A leitura e análise dos exemplares do jornal Voz do Catraio foram fundamentais para o conhecimento da personalidade, do carácter e do humanismo de Vasco Moniz.
Este jornal, de carácter social, pode ser uma folha de couve, mas nunca será uma folha em que se reimprima o que outros deixaram escrito em tratados de sociologia ou filantropia, que enchem as estantes das nossas bibliotecas.
[…] [A Voz do Catraio] não foi feito para regalo dos grandes. É a Voz do Catraio. E tanto basta. Os catraios ligam, ou ligavam, mais importância aos melões da Quinta do Bolhão do que às regras gramaticais; sabia-lhes muito melhor uma beata apanhada na rua do que uma frase sonora pronunciada por uma língua culta. O meu vocabulário não pode ser senão o vocabulário dos catraios. Ora, os meus catraios, por enquanto, conjugam bem só um verbo: o verbo ter, e na primeira pessoa do presente indicativo tenho. Dos substantivos, também conhecem um: fome […]

Em 1946 foi fundado o jornal Voz do Catraio, inspirado no jornal O Gaiato do padre Américo. A sua existência era uma forma de angariar fundos para a instituição, uma vez que as despesas aumentavam à medida que as obras cresciam e o dinheiro dos benfeitores já não cobria os investimentos.
O jornal, de “carácter social” (nas palavras do próprio padre Moniz), saía no segundo domingo de cada mês e era vendido pelos catraios transformados em ardinas. Percorriam Lisboa, Loures, Samora Correia, Azambuja, Benavente, Santarém, Muge, Carregado, Alenquer e muitas outras localidades, apregoando o seu jornal, que tinha o preço de 1 escudo.
Havia meses em que as vendas ultrapassavam em muito os mil exemplares e, no seu primeiro ano de vida, angariou assinaturas anuais no valor de doze mil escudos.

o Carlos e o Zé Pedro, os dois “intelectuais” do CASI trabalham na organização do ficheiro da Voz do Catraio
Em 1953 tinha já cerca de três mil assinantes. Inicialmente, a Voz do Catraio era impresso numa tipografia da vila – Fernando A. Faria, Lda. – mas posteriormente, o CASI adquiriu a sua própria tipografia, orientada por Luís Cairrão e, mais tarde, por José Correia.
Este jornal deixou de ser publicado em 1961 devido a pressões da censura.
A leitura e análise dos exemplares do jornal Voz do Catraio foram fundamentais para o conhecimento da personalidade, do carácter e do humanismo de Vasco Moniz.
o cabeçalho da Voz do Catraio foi desenhado por Noel Perdigão, pintor e poeta vilafranquense
Este jornal, de carácter social, pode ser uma folha de couve, mas nunca será uma folha em que se reimprima o que outros deixaram escrito em tratados de sociologia ou filantropia, que enchem as estantes das nossas bibliotecas.
[…] [A Voz do Catraio] não foi feito para regalo dos grandes. É a Voz do Catraio. E tanto basta. Os catraios ligam, ou ligavam, mais importância aos melões da Quinta do Bolhão do que às regras gramaticais; sabia-lhes muito melhor uma beata apanhada na rua do que uma frase sonora pronunciada por uma língua culta. O meu vocabulário não pode ser senão o vocabulário dos catraios. Ora, os meus catraios, por enquanto, conjugam bem só um verbo: o verbo ter, e na primeira pessoa do presente indicativo tenho. Dos substantivos, também conhecem um: fome […]
na construção do ginásio do CASI foram utilizadas mais de sete toneladas de ferro.
O ginásio do CASI
A 8 de Dezembro de 1950, e após oito meses de trabalho, foi inaugurado o Ginásio do CASI, um pavilhão gimnodesportivo polivalente (o terceiro coberto do país), que veio possibilitar aos catraios e a outros jovens de Vila Franca de Xira a prática do desporto, o gosto pelo teatro, bem como por outras actividades.
Este ginásio foi baptizado de Ginásio Ferreira Delgado, em homenagem ao homem que ajudara a instituição nos primeiros projectos. Ali se acolheram inúmeras actividades desportivas como o hóquei em patins, basquetebol, voleibol, andebol e futebol de sete. Ali se realizaram encontros desportivos concelhios, regionais e até nacionais.
O espaço, projectado por Raúl Casquinha, servia também para teatro, revista, concertos musicais, óperas e palestras. Posteriormente, foi transformado em escritórios, oficinas de serralharia e carpintaria, onde os jovens eram formados.
A 25 de Fevereiro de 1951 foi oficialmente inaugurado no Ginásio o rinque de patinagem, com um festival de hóquei e patinagem artística, organizado pelo Clube Foot-Ball Benfica, com a colaboração da Federação Portuguesa de Patinagem do Sul, sob o patrocínio do jornal O Mundo Desportivo.
O associativismo sempre teve um grande peso em Vila Franca de Xira, mas não era visto com bons olhos pelo Estado Novo. Havia intolerância de natureza política e era difícil a fundação de novas colectividades.
Vasco Moniz sabia da importância do associativismo na comunidade e o seu papel na formação cívica da população. Com a sua ajuda, foi fundado o Clube de Amadores de Pesca de Vila Franca de Xira, em 1963, do qual foi o sócio n.º 1. Mais tarde, em homenagem à sua memória, foi distinguido como primeiro Sócio Honorário.
Já anteriormente, a sua acção tinha criado as condições necessárias para a fundação do Óquei Clube de Vila Franca, em 1951, ao permitir que o Ginásio do CASI fosse cedido para a prática desta modalidade desportiva.
Em 1953 anunciou-se a construção de um novo e mais espaçoso rinque de patinagem para fazer face às necessidades do clube, que nessa altura estava na primeira divisão.
a quinta do CASI, mais tarde viria a instalar-se nestes terrenos a piscina municipal
Economia social
Vasco Moniz tinha consciência de que apenas a independência económica lhe possibilitaria resolver muitos dos problemas da sua instituição, pelo que, ano após ano, foi consolidando um património cujo lucro da exploração lhe garantia a estabilidade económica e o prosseguimento da sua obra.
O CASI foi construido em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Posteriormente, a Câmara fez uma nova cedência de terrenos para a ampliação das instalações e a construção do ginásio.
O CASI beneficiava da exploração de uma quinta emprestada pela família Palha, situada em Povos – Quinta do Caipira. A exploração era feita pelos jovens do Centro e nela se produziam legumes, fruta, azeitona e cereais, para além da criação de ovelhas, porcos, galinhas e coelhos, que serviam para alimentar a população da instituição.
Com o crescimento das oficinas, o trabalho da quinta foi sendo deixado para trás. Mais tarde, os terrenos da quinta foram adquiridos pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, instalando-se aí a Piscina Municipal.
As oficinas eram, talvez, a actividade mais importante do CASI. Por um lado, nela se empregavam os catraios que, a par de ganharem um salário, aprendiam uma profissão que lhes seria muito útil no futuro. Por outro lado, os trabalhos aí executados eram um apoio financeiro do qual o Centro não podia prescindir. Existiam oficinas de alfaiataria e sapataria, carpintaria e serração mecânicas, serralharia civil e tipografia. Um exemplo prático desse trabalho era o aluguer de cadeiras executadas nas oficinas do Centro.
O CASI era também proprietário da Pensão-Restaurante Flora, que entrou em funcionamento em Janeiro de 1957, tendo o edifício sido construído pelo próprio Centro. O Bairro do CASI foi outra das iniciativas que Vasco Moniz tomou a seu cargo, bem como os primeiros prédios do Bairro do Bom Sucesso, representando um importante investimento financeiro para a instituição.
a quinta do CASI, mais tarde viria a instalar-se nestes terrenos a piscina municipal
Economia social
Vasco Moniz tinha consciência de que apenas a independência económica lhe possibilitaria resolver muitos dos problemas da sua instituição, pelo que, ano após ano, foi consolidando um património cujo lucro da exploração lhe garantia a estabilidade económica e o prosseguimento da sua obra.
O CASI foi construido em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Posteriormente, a Câmara fez uma nova cedência de terrenos para a ampliação das instalações e a construção do ginásio.
O CASI beneficiava da exploração de uma quinta emprestada pela família Palha, situada em Povos – Quinta do Caipira. A exploração era feita pelos jovens do Centro e nela se produziam legumes, fruta, azeitona e cereais, para além da criação de ovelhas, porcos, galinhas e coelhos, que serviam para alimentar a população da instituição.
Com o crescimento das oficinas, o trabalho da quinta foi sendo deixado para trás. Mais tarde, os terrenos da quinta foram adquiridos pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, instalando-se aí a Piscina Municipal.
As oficinas eram, talvez, a actividade mais importante do CASI. Por um lado, nela se empregavam os catraios que, a par de ganharem um salário, aprendiam uma profissão que lhes seria muito útil no futuro. Por outro lado, os trabalhos aí executados eram um apoio financeiro do qual o Centro não podia prescindir. Existiam oficinas de alfaiataria e sapataria, carpintaria e serração mecânicas, serralharia civil e tipografia. Um exemplo prático desse trabalho era o aluguer de cadeiras executadas nas oficinas do Centro.
O CASI era também proprietário da Pensão-Restaurante Flora, que entrou em funcionamento em Janeiro de 1957, tendo o edifício sido construído pelo próprio Centro. O Bairro do CASI foi outra das iniciativas que Vasco Moniz tomou a seu cargo, bem como os primeiros prédios do Bairro do Bom Sucesso, representando um importante investimento financeiro para a instituição.
Educação e práticas pedagógicas
Vasco Moniz instalou no edifício do CASI uma escola primária, por onde passaram inúmeros alunos internos e externos. A instrução dos catraios era algo que o preocupava bastante, a par da educação, do profissionalismo e da religiosidade.
Nos primeiros tempos, poucos eram os que faziam a Quarta Classe. Posteriormente, os resultados melhoraram bastante, com o aparecimento da Escola Industrial e Comercial e do Liceu Sousa Martins.
Alguns catraios fizeram o liceu, o curso industrial ou comercial. Outros, poucos, chegaram à Universidade e concluíram um curso superior. Para os que tinham mais dificuldades, eram contratados explicadores e foram criadas aulas nocturnas para os analfabetos.
Para além da ajuda que dava aos professores do Centro, o padre Moniz dava aulas de Latim e Grego no Colégio Sousa Martins, de Português e História no ciclo preparatório em Monchique, Alcochete e Vila Franca de Xira, onde pertenceu à Comissão Directiva.
Para Vasco Moniz, a educação dos catraios, os modos e as práticas pedagógicas adoptadas pelo Centro eram uma preocupação constante. “Cada qual pode ter o seu método de educar. E, de facto, não há quem o não tenha. Pelo que não admira que nós tenhamos o nosso. Não pretendemos propor reformas pedagógicas. Nem tão pouco dar lições de pedagogia. ( … )”
Estas preocupações estavam associadas ao reconhecimento das dificuldades que existiam na educação de crianças e jovens, sobretudo quando estas são acrescidas devido às histórias de vida dos catraios.
“Ha muito quem pense – eu tambem assim pensava – que isto de educar a criança é tão suave como fazer versos em noites de luar ( … )”
“( … ) O trabalho do educador-educador, não falo do educador-funcionário, também não pode ser regulado por contratos colectivos pela simples razão de que os limites desse trabalho são as necessidades do educando. ( … )”
Neste sentido, Vasco Moniz considerava que o trabalho do educador era uma tarefa contínua, ou seja, que não se podia limitar a cumprir horários ou encargos normativos. O papel do educador, e assumia-o como seu, era balizado pelas carências dos educandos. A transmissão de valores, como a honestidade e o incutir do sentido da responsabilidade nos catraios eram pilares fundamentais nas práticas educacionais do CASI.
“( … ) Ser-se honesto não consiste em não mexer na coisa alheia. A honestidade consiste, mas é, em não mexer na coisa alheia quando se podia fazê-lo impunemente. ( … )”
“( … ) Nós confiamos-lhes dinheiro e coisas, mas não à toa. São eles que vão receber as cotas, a importância das assinaturas, o pagamento das facturas das oficinas. São eles que vendem o jornal, recebem os acréscimos; vão ao mercado fazer compras.
( … ) Não vejo outra maneira de cultivar o sentimento da responsabilidade que é o factor primordial da educação.”
“( … ) Eles [os catraios] um dia serão chamados à vida. Por isso, desde já ponho-lhes numa mão o dom da liberdade e na outra o sentimento da responsabilidade. ( … )”
Desde a abertura do Centro, Vasco Moniz tinha uma relação de entendimento e amizade muito esteita com os rapazes, que se intensificou ao longo dos tempos. Era com muito carinho que se referia aos catraios e ao relacionamento que os rapazes tinham entre si, chegou mesmo a dizer:
“( … ) Não me importava de morrer. Mas quando vejo o nosso miúdo a chamar mano ao Manuel Gaibéu, ou contemplo o Zé Maria com o Camilo, adormecido às costas, conduzindo-o ao leito, digo a Deus, que não quero morrer.” O interesse que tinha pelos catraios não se reduzia às questões da sua educação.
Naturalmente, questionava-se acerca das suas vidas quando saíssem do CASI e era com alguma ansiedade que vivia a saída dos rapazes. “O futuro destes rapazes preocupou-me desde a primeira hora. Que um dia eles sairiam desta casa, sabia-o eu. É a ordem natural das coisas. ( … )”
As oficinas do CASI
e a formação dos catraios
As oficinas do Centro eram, como já foi referido, um dos pilares da formação profissional dos catraios, assim como uma das mais importantes formas de financiamento do CASI.
Vasco Moniz considerava essencial que os rapazes aprendessem um ofício que contribuísse para o seu desenvolvimento pessoal e para a aquisição de conhecimentos técnico-práticos para a sua futura vida profissional.
“( … ) A nossa carpintaria não comporta mais aprendizes; não posso formar mais pedreiros nas nossas obras”.
“( … ) Não posso empregar os rapazes em ofícios em que eles não ofereçam certas garantias. Eu não procuro livrar-me deles como uma canga ( … )”.
Esta era uma das inquietações do director do Centro, que procurava colocar os catraios em trabalhos que fossem adequados à sua formação. As necessidades do CASI foram crescendo e foram criados mais espaços destinados à formação e à transformação de matérias-primas para posterior comercialização.
«Resolvi ampliar a nossa actividade industrial com mais uma oficina-escola. É a nossa “Metalúrgica”».
Vasco Moniz descreveu a serralharia do CASI do seguinte modo: “À bancada, uma data de catraios cortam e limam e vergam e martelam, sob a proficiente direcção de dois chefes competentes.

Aquilo nem parece uma oficina. Parece antes um estúdio de uma Orquestra Sinfónica que me deleita de tal forma que não sinto necessidade de ir ao São Carlos ( … ).
Fabrica-se tudo: grades, portas e portões, armação para as montras, trabalhos em ferro forjado, móveis de aço cromado, cadeiras, mesas, tabuleiros de chá, bengaleiros, carrinhos de bebé e, se nos encomendarem, até carrões para as mamas …
( … ) Já lá vai o tempo em que uma boa dúzia de catraios passava a vida no dolce far niente pretextando que não queriam ser carpinteiros, nem pintores, nem estucadores, nem electricistas, nem pedreiros, nem nada do que cá tínhamos. Serralheiro, serralheiro é que eu queria ser! (… )”.
As oficinas do CASI e a formação dos catraios
As oficinas do Centro eram, como já foi referido, um dos pilares da formação profissional dos catraios, assim como uma das mais importantes formas de financiamento do CASI.
Vasco Moniz considerava essencial que os rapazes aprendessem um ofício que contribuísse para o seu desenvolvimento pessoal e para a aquisição de conhecimentos técnico-práticos para a sua futura vida profissional.
“( … ) A nossa carpintaria não comporta mais aprendizes; não posso formar mais pedreiros nas nossas obras”.
“( … ) Não posso empregar os rapazes em ofícios em que eles não ofereçam certas garantias. Eu não procuro livrar-me deles como uma canga ( … )”.
Esta era uma das inquietações do director do Centro, que procurava colocar os catraios em trabalhos que fossem adequados à sua formação. As necessidades do CASI foram crescendo e foram criados mais espaços destinados à formação e à transformação de matérias-primas para posterior comercialização.
«Resolvi ampliar a nossa actividade industrial com mais uma oficina-escola. É a nossa “Metalúrgica”».
Vasco Moniz descreveu a serralharia do CASI do seguinte modo: “À bancada, uma data de catraios cortam e limam e vergam e martelam, sob a proficiente direcção de dois chefes competentes.

Aquilo nem parece uma oficina. Parece antes um estúdio de uma Orquestra Sinfónica que me deleita de tal forma que não sinto necessidade de ir ao São Carlos ( … ).
Fabrica-se tudo: grades, portas e portões, armação para as montras, trabalhos em ferro forjado, móveis de aço cromado, cadeiras, mesas, tabuleiros de chá, bengaleiros, carrinhos de bebé e, se nos encomendarem, até carrões para as mamas …
( … ) Já lá vai o tempo em que uma boa dúzia de catraios passava a vida no dolce far niente pretextando que não queriam ser carpinteiros, nem pintores, nem estucadores, nem electricistas, nem pedreiros, nem nada do que cá tínhamos. Serralheiro, serralheiro é que eu queria ser! (… )”.
as pescarias eram habituais nos momentos de lazer
Acção Social
O lazer e as colónias de férias
Havia alguns momentos de descanso em conjunto.
O CASI tinha uma carrinha que, para além de outros serviços, era utilizada aos domingos e feriados para levar as crianças a pescarias no campo ou para as praias de Santa Cruz, Nazaré e Foz do Arelho.
A família Palha organizava todos os anos uma colónia de férias na Nazaré, para rapazes da Castanheira do Ribatejo e Povos, aos quais se juntava um pequeno grupo de catraios, que assim tinham umas merecidas férias. Noutros anos, os jovens do CASI passavam os verões na Colónia Balnear de O Século.
Saúde
Aquando das obras de remodelação do CASI, em 1947, o padre Moniz mandou fazer uma enfermaria com capacidade para cinco camas e um posto médico para fazer face às necessidades da instituição.
Semanalmente, um médico deslocava-se ao consultório e aí observava, não só, os doentes do Centro, mas também os doentes do exterior que necessitassem de cuidados médicos.
Um infantário para filhos de mulheres trabalhadoras
Uma das primeiras iniciativas de carácter social do CASI terá sido, certamente, a abertura de um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
Este infantário começou a funcionar a partir da inauguração do Centro, possibilitando que as mulheres trabalhadoras tivessem um local onde deixar os filhos em segurança durante a jornada de trabalho.

Grupo coral do CASI
Durante os períodos de lazer, para além do futebol, que ocuparia os jovens 24 horas por dia se assim pudessem, a música também marcou presença. Foi criado um grupo coral infantil, apresentado no dia 1 de Maio de 1946, em Lisboa, tendo a sua actuação sido transmitida pela Emissora Nacional.
Existia também um grupo cénico dirigido, igualmente, por Joaquim Malta.
O Bairro do CASI
O padre Moniz tinha a ideia de que o CASI não podia estar apenas dependente da venda do jornal Voz do Catraio. Como tal, idealizou uma obra que seria uma espécie de “seguro” para a sobrevivência do próprio CASI – um bairro económico.
O terreno foi comprado em Abril de 1951 e o bairro foi projectado por João Alcobia. Previa-se que em cerca de três anos se construíssem habitações que dariam para instalar dezenas de famílias.
A primeira pedra foi lançada a 13 de Dezembro de 1951 e, em Fevereiro de 1953, estavam já prontos dois terços das fracções, algumas entregues aos inquilinos nesse mesmo mês. Os trabalhadores da obra eram quase todos do CASI, à excepção de um pedreiro que veio de fora. Os restantes – 20 carpinteiros, pedreiros e serventes – eram jovens que estavam ociosos desde o fim das obras do ginásio.
As obras eram acompanhadas pelos arquitectos José Bastos e Conceição e Silva. O financiamento da obra estava a cargo não só das ofertas das empresas da região, mas também da venda de bilhetes para três sorteios, realizados um por ano (de 1952 a 1954).
Estes sorteios eram autorizados pelo Ministro do Interior, sendo os resultados publicados nos jornais O Século e Diário de Notícias.
Em 1953, chegou a notícia de que não seriam autorizadas mais obras na Costa Branca, que era a parte da vila que o CASI tinha vindo a desbravar, ficando o projecto por aqui. Estas habitações foram vendidas aos inquilinos que as quiseram adquirir durante a década de 70.
Uma das primeiras iniciativas de carácter social do CASI terá sido, certamente, a abertura de um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
Este infantário começou a funcionar a partir da inauguração do Centro, possibilitando que as mulheres trabalhadoras tivessem um local onde deixar os filhos em segurança durante a jornada de trabalho.
O terreno para a construção do bairro custou cerca de 70.000$00.
As habitações tinham três quartos, uma sala, uma cozinha, uma despensa, uma casa-de-banho, um escritório e duas varandas.
Houve 51 pedidos para 21 habitações. O bairro foi pensado para famílias recém-formadas, particularmente as que tivessem crianças pequenas e fracos recursos financeiros. Solteiros ou pessoas com posses não seriam admitidos.
A renda foi fixada em 250$00. Os bilhetes para os sorteios custavam 2$50 e o primeiro prémio era uma casa.

O Bairro do CASI
O padre Moniz tinha a ideia de que o CASI não podia estar apenas dependente da venda do jornal Voz do Catraio. Como tal, idealizou uma obra que seria uma espécie de “seguro” para a sobrevivência do próprio CASI – um bairro económico.
O terreno foi comprado em Abril de 1951 e o bairro foi projectado por João Alcobia. Previa-se que em cerca de três anos se construíssem habitações que dariam para instalar dezenas de famílias.
A primeira pedra foi lançada a 13 de Dezembro de 1951 e, em Fevereiro de 1953, estavam já prontos dois terços das fracções, algumas entregues aos inquilinos nesse mesmo mês. Os trabalhadores da obra eram quase todos do CASI, à excepção de um pedreiro que veio de fora. Os restantes – 20 carpinteiros, pedreiros e serventes – eram jovens que estavam ociosos desde o fim das obras do ginásio.
As obras eram acompanhadas pelos arquitectos José Bastos e Conceição e Silva. O financiamento da obra estava a cargo não só das ofertas das empresas da região, mas também da venda de bilhetes para três sorteios, realizados um por ano (de 1952 a 1954).
Estes sorteios eram autorizados pelo Ministro do Interior, sendo os resultados publicados nos jornais O Século e Diário de Notícias.
Em 1953, chegou a notícia de que não seriam autorizadas mais obras na Costa Branca, que era a parte da vila que o CASI tinha vindo a desbravar, ficando o projecto por aqui. Estas habitações foram vendidas aos inquilinos que as quiseram adquirir durante a década de 70.
Uma das primeiras iniciativas de carácter social do CASI terá sido, certamente, a abertura de um berçário/creche para os filhos das mulheres trabalhadoras.
Este infantário começou a funcionar a partir da inauguração do Centro, possibilitando que as mulheres trabalhadoras tivessem um local onde deixar os filhos em segurança durante a jornada de trabalho.

O terreno para a construção do bairro custou cerca de 70.000$00.
As habitações tinham três quartos, uma sala, uma cozinha, uma despensa, uma casa-de-banho, um escritório e duas varandas.
Houve 51 pedidos para 21 habitações. O bairro foi pensado para famílias recém-formadas, particularmente as que tivessem crianças pequenas e fracos recursos financeiros. Solteiros ou pessoas com posses não seriam admitidos.
A renda foi fixada em 250$00. Os bilhetes para os sorteios custavam 2$50 e o primeiro prémio era uma casa.
Preocupações sociais
A crítica social era permanente nas palavras e atitudes de Vasco Moniz, ao ponto de afirmar o seguinte:
Bodos! Paradas de caridade !!!
( … ) o que é que os pobres lucram com isso? Na melhor das hipóteses uma empanturradela dum dia, com a consequente indigestão no dia seguinte, para curar a qual, os beneficiados do bodo não terão meios, visto que os organizadores dessas paradas não costumam distribuir pacotinhos de bicarbonato de soda para o que der e vier.”
As suas preocupações estendiam-se para além dos limites do CASI. Era com grande apreensão que comentava a situação precária em que viviam muitas pessoas nos bairros clandestinos de Vila Franca de Xira.
Vejo todos os dias uma bicha de novos pretendentes a novas barracas da Pedra Furada a pedir-me madeira. Desconfio seriamente que qualquer dia os habitantes do bairro da lata se lembram de lhe chamar o Bairro Padre Vasco Moniz e vir convidar-me a cortar a fita… em homenagem às muitas barracas que ajudei a construir ou a reconstruir. ( … )”
O homem e a Igreja
Vasco Moniz nasceu no seio de uma família católica na terra considerada a mais crista da Índia: Salcete, Goa.
Estudou no Seminário de Rachol e foi ordenado sacerdote católico a 3 de Outubro de 1937, em Goa. Em 1939, foi enviado para Roma para terminar a Licenciatura em Teologia Dogmática, na Pontifícia Universidade Gregoriana, o que sucedeu a 3 de Junho de 1940. É preciso relembrar o significado de, neste período, ser indiano na Itália xenófoba de Mussolini.
Estalou a Segunda Guerra Mundial e, de regresso a Goa, embarcou até Lisboa, de onde seria mais fácil arranjar transporte. Enquanto aguardava, o missionário Vasco Moniz pediu funções à Diocese de Lisboa.
D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca, nomeou-o para a Paróquia de S. Vicente Mártir de Vila Franca de Xira, tendo-se apresentado em Fevereiro de 1941, substituindo o pároco António Antunes Abranches. Assim, quase por acaso, acabou por ficar à frente da igreja vilafranquense durante trinta e três anos.
acta da “Corporação do culto católico de Vila Franca de Xira”
Entrada de Vasco Moniz na Paróquia
Sessão Ordinária de 7 de Fevereiro de 1941
No dia sete de Fevereiro de 1941, pelas vinte e uma horas, reuniu na sacristia da Igreja Paroquial desta Freguesia, a direcção da Fábrica.
Pelo Senhor Presidente, o nosso querido Reverendo Pároco António Antunes Abranches, foi comunicado que por determinação de Sua Eminência Reverendíssima, o Senhor Cardeal-Patriarca, ia ser substituído na Paróquia pelo Reverendo Pároco Dr. Vasco Moniz, o qual fazia a sua apresentação no dia nove do corrente”.
O padre Moniz admirava a figura do Papa João XXIII e era adepto das resoluções conciliares resultantes do Concílio Vaticano II, que apontavam para uma modernização das estruturas da Igreja Católica, nomeadamente através de uma maior participação dos leigos nas actividades das congregações e da adesão ao Ecumenismo, movimento que apelava ao diálogo e à unidade de todas as igrejas cristãs.
Encetou um estreito relacionamento com a Igreja Católica Apostólica Evangélica Lusitana e com o seu pastor, D. Luís César Pereira, chegando cada um deles a promover celebrações ecuménicas na Igreja do outro.
Seguindo o exemplo do Cardeal Cardine, fundador da Acção Católica, Vasco Moniz apoiou os movimentos de juventude, nomeadamente a JOC (Juventude Operária Católica), que tinha a sua sede no CASI.
A sua missão junto das classes operárias visava a criação de melhores condições de trabalho e de vida, em clara inspiração nos princípios da Doutrina Social da Igreja, de Leão XIII. Era o ver, julgar e agir.
Vasco Moniz, que era amigo pessoal do Cardeal Cerejeira, acabou por se afastar a partir do momento em que este se pôs claramente do lado do regime.
A ruptura com a hierarquia da Igreja portuguesa aumentava gradualmente, à medida em que a maioria dos bispos, adoptava a “doutrina” do Estado Novo.
Aos poucos, preferiu marginalizar-se, conservando a consciência tranquila, não a vendendo em troca da “solidariedade” dos endinheirados.
visita do cardeal cerejeira por ocasião das bodas de prata sacerdotais de vasco Moniz
Boletim Paroquial, uma voz incómoda e actuante
É no espírito do Vaticano II que, em 1970, surge o primeiro Boletim Paroquial, com uma pastoral actuante e reformista, que acabaria por ser proibido pela censura em 1972, devido ao seu estilo acutilante.
Este boletim foi inicialmente redigido por Vasco Moniz, tendo sido alargada a sua redacção a uma equipa constituída para o efeito.
Através da leitura e apreciação de vários números do Boletim Paroquial é possível ter uma maior percepção das preocupações sociais de Vasco Moniz e da sua postura interventiva ao tentar despertar consciências para as grandes questões e contradições da Igreja e da sociedade portuguesa da época.
É no espírito do Vaticano II que, em 1970, surge o primeiro Boletim Paroquial, com uma pastoral actuante e reformista, que acabaria por ser proibido pela censura em 1972, devido ao seu estilo acutilante.
Este boletim foi inicialmente redigido por Vasco Moniz, tendo sido alargada a sua redacção a uma equipa constituída para o efeito.
Através da leitura e apreciação de vários números do Boletim Paroquial é possível ter uma maior percepção das preocupações sociais de Vasco Moniz e da sua postura interventiva ao tentar despertar consciências para as grandes questões e contradições da Igreja e da sociedade portuguesa da época.
O homem “subversivo”
O seu espírito progressista, evidenciado nos artigos que escrevia nos jornais e no Boletim Paroquial, as suas homilias pouco ortodoxas, as reuniões do Secretariado Paroquial – onde se discutiam não só questões referentes à paróquia, mas também problemas sociais e laborais -, para além da contribuição regular para apoio às famílias dos presos políticos, valeram-lhe a atenção por parte da PIDE/DGS.
Nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo encontram-se dois processos relativos a Vasco Moniz, com documentação vária e onde este é classificado como “não oferecendo garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado”, pomposa designação para aqueles que, de alguma forma, não se enquadravam no espírito do regime.
Entre esses documentos encontram-se:
. um abaixo-assinado subscrito por Vasco Moniz, entre outros, que propunha a amnistia para todos os presos políticos;
. uma denúncia feita pelo Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira em funções em 1973, “alertando” a PIDE/DGS para o comportamento “suspeito” de Vasco Moniz;
. várias informações de agentes da PIDE/DGS, infiltrados em algumas reuniões realizadas na paróquia;
. um auto de busca a uma residência – o célebre “34” – – propriedade do CASI, onde foram apreendidos materiais clandestinos de propaganda política.
Não é pois de estranhar, que tanto a Voz do Catraio como o Boletim Paroquial tenham sido suspensos por pressões da censura.
Já depois do 25 de Abril, em Outubro de 1974, Vasco Moniz escreveu ao Cardeal-Patriarcal de Lisboa, pedindo a dispensa das suas funções sacerdotais, ou seja, a passagem ao estado laical.
A distância entre Vasco Moniz e a hierarquia da Igreja era cada vez maior e, como ele próprio afirmou nessa carta, “voltar a exercer o ministério sacerdotal seria abafar a voz da minha consciência”, pelo que se decidiu pelo afastamento.
Despediu-se da paróquia em 1974, mas o processo de passagem ao estado laical só deu entrada no Tribunal Patriarcal no final de 1976, tendo recebido autorização vaticana de dispensa de ordens sacras a 14 de Março de 1977.
Do CASI para o CBEI
A procura de novos caminhos para o prosseguimento da obra do CASI levou a que se experimentassem as ideias da autogestão, muito em voga na época.
Numa primeira fase, esse parecia ser o caminho, contudo, a falta de experiência de gestão e a saída de alguns elementos, motivada pela alteração das suas vidas e novas e melhores oportunidades de emprego, veio inviabilizar essa solução.
Surgiu então a ideia de transformar o que restava do CASI num Infantário.
Em 1975 nascia o CBEI – Centro de Bem-Estar Infantil de Vila Franca de Xira. O CBEI foi a primeira instituição de apoio à infância no nosso concelho e uma das primeiras do país.

O CBEI é uma IPSS, Instituição Particular de Solidariedade Social, que de acordo com os seus estatutos, publicados no Diário do Governo de 12 de Fevereiro de 1975, não tem fins lucrativos e tem como objectivos a assistência à primeira, segunda e terceira infâncias.
A primeira Assembleia Geral do CBEI realizou-se a 18 de Novembro de 1976, com a participação de 43 associados.
Comissão Instaladora
José Araújo, João Conceição, Irene Couto, Cristina Marques, Carlos Marques e Paulo Couto
Os primeiros Corpos Sociais
Na Assembleia foram eleitos os primeiros Corpos Sociais, para o triénio 76/78, cuja composição era a seguinte:
Assembleia Geral
Maria Jose Paixão, Maria Elisa Calheiros e Paulo Couto
Direcção
Norberto Sousa, Sertório Félix, José Araújo, Virgínia Araújo e Irene Couto
Conselho Fiscal
Maria Capucha, Carlos Marques e José Ferreira
Estes elementos tomaram posse a 13 de Dezembro de 1976.
Curiosidades
. O valor da quota foi fixado em 10$ mensais.
. As primeiras mensalidades foram fixadas em 800$ por mês.
. Por cada criança, era atribuído um subsídio pela Direcção Geral de Assistência.
. Os critérios para a definição das prioridades na admissão de crianças foram fixados pelo IFAS, Instituto da Família e Acção Social.
. O funcionamento do Centro foi objecto de um despacho do Secretário de Estado da Segurança Social.
Uma vida em prol dos outros
Em 2002, quando o CBEI abordou, numa das reuniões da Comissão para as Festas da Cidade de Vila Franca de Xira, a necessidade de se promover uma homenagem onde se incluísse a atribuição, a título póstumo, da Medalha de Mérito Municipal, tal pretensão estava imbuída do espírito de que mais alguma coisa tinha de ser feita para lembrar, relembrar e dar a conhecer a importância de Vasco Moniz para Vila Franca de Xira, para o seu património humano e social.
Não foi tarefa fácil. A quantidade de informação disponível, o volume e o valor da obra por ele desenvolvida nas mais diversas vertentes, teria justificado que outros, antes de nós, tivessem tomado em mãos o propósito de fazer com que a sua memória não se perdesse.
Elaborar um trabalho desta natureza, sobre a vida e a obra de uma figura que, indiscutivelmente, marcou Vila Franca de Xira, as suas gentes e, sobretudo, muitas centenas de pessoas, é um desafio muito interessante e arriscado.
Este não é o trabalho. É, apenas, mais um trabalho seguramente incompleto. Outros abordariam o assunto de outra forma, valorizando mais este ou aquele aspecto. Da nossa parte, para que conste, entendemos indispensável afirmar que, num momento em que parece que estamos condenados a uma certa formatação das mentes, das atitudes, dos valores e dos comportamentos, o exemplo de Vasco Moniz é, seguramente, uma pedrada no charco, um grito de alerta!
As suas palavras, incómodas e de uma pontaria certeira, são, ainda hoje, de uma actualidade impressionante
O CASI há-de agitar as águas estagnadas dos pântanos. O CASI é revolucionário, manda uma rasteira à ordem social estabelecida”
transcrição do Jornal Vida Ribatejana
«Professor de comunicação social na Universidade Estadual de São Paulo, Manuel Chaparro, amigo do padre Moniz, falou do homenageado em quatro dimensões: o pedagogo, o amigo, o homem, o lutador.
Traçou um quadro emocional do homenageado, lembrando muitas das suas ideias e posições, ou como comentava o que outros não faziam e deviam.
Curiosa a dicotomia que referiu acerca da “caridade normal” e da “caridade jantarista”, tal como definiu iniciativas que outros promoveram em prol dos pobres, dos desprotegidos, mas cujo saldo era escasso ou nulo, porque as pessoas queriam mais comer do que ajudar.
Ao contrário de outros, que comiam menos abastadamente, menos pomposamente, para que a receita justificasse a iniciativa.
Os meios a justificarem os fins.”
CBEI – Um projecto de futuro
Tal como o CASI, também o CBEI foi mudando e evoluindo, adaptando-se aos novos tempos, às novas realidades e necessidades das crianças, suas famílias e comunidade.
No início da sua actividade, o Centro estava direccionado para o trabalho com a primeira, segunda e terceira infâncias – crehe, jardim-de-infância e actividades de tempos livres, respectivamente.
Ao longo destes 50 anos novas exigências levaram a que se desenvolvessem outros projectos. O CBEI criou novas valências – 2.º Ciclo (5º e 6º anos de escolaridade), Clube de Jovens (7º, 8º e 9º anos de escolaridade), Educação Física, Inglês e a Escola de Natação “Os Golfinhos”. Foram muitos os projectos desenvolvidos, muitas crianças e jovens, muitas histórias para contar.
Mas nem tudo correu bem e fruto de opções tomadas por anteriores direcções, o CBEI perdeu muitos destes projectos e reduziu significativamente o número de crianças a frequentar as suas actividades.
O ano de 2024 trouxe alterações ao CBEI, com a eleição de novos Órgãos Sociais da Instituição.
Apesar dos muitos problemas encontrados – financeiros, de infraestruturas, organizacionais, entre outros – foi possível criar novas dinâmicas no funcionamento interno, na projeção renovada para o exterior, na preparação do futuro imediato do CBEI.
Uma dinâmica que permitiu, entre outras coisas, renovar espaços, aumentar salas e crianças, reforçar o quadro de pessoal, reforçar as diferentes áreas de atuação da instituição, ampliar a realização de atividades e eventos, internos e externos, como foi o caso do Mercado Medieval.
Estamos a percorrer um caminho para reerguer a nossa Instituição, enfrentando os desafios com resiliência e determinação. O nosso foco permanece nas crianças, nas suas famílias e na comunidade. Cada acção que tomamos é guiada pelo desejo de criar um espaço seguro, inclusivo e estimulante, onde cada criança possa alcançar o seu potencial máximo.
Queremos um CBEI de referência na educação, onde as crianças e jovens sejam livres e felizes, numa sociedade mais justa, de todos e para todos.

Este trabalho é o resultado do projecto de homenagem a Vasco Moniz, realizado por ocasião do 60º aniversário da fundação do CASI, no âmbito das iniciativas de comemoração do Dia da Cidade de Vila Franca de Xira em 2003.
Nestas comemorações, entre outras acções, foi realizada uma Exposição e um Colóquio no espaço do antigo Xiradoce, bem como a edição de um livro que agora se disponibiliza.
Dar a conhecer a vida e a obra de uma figura que, indiscutivelmente marcou Vila Franca de Xira e as suas gentes, é uma responsabilidade que continuamos a transportar.






































